1. Conteúdo
  2. Navegação
  3. Mais conteúdo
  4. Cabeçalho
  5. Busca
  6. Selecione dentre 30 idiomas

 
 
 

 

Alemanha | 30.06.2008

"Social-democratas estão imprensados entre A Esquerda e CDU conservadora"

Em entrevista à DW-WORLD.DE, Thomas Meyer, cientista político e membro do Partido Social Democrata (SPD), explica como a crise dos partidos populares afeta a legenda mais antiga da Alemanha.

DW-WORLD.DE: Há vários anos o número de filiados dos partidos populares vem diminuindo. Essa tendência significa o fim dos grandes partidos na Alemanha?

 

Thomas Meyer: A redução de membros dos grandes partidos modifica o papel das grandes agremiações. É preciso haver mais partidos para formar coalizões governamentais, há mais legendas no sistema. Esta é a mudança.

 

A existência de mais partidos menores enfraquece o poder de ação do Estado?

 

Não diretamente. Há muitos países – democracias bastante estáveis – que já tiveram muito mais partidos e que precisaram de quatro ou cinco parceiros para formar uma coalizão. Fica um pouco mais difícil criar um governo, mas o Estado em si não fica mais fraco.

 

O SPD é a legenda que mais sofre com a redução de filiados. Por quê?

 

Atualmente, o SPD tem um papel muito difícil. Ele está espremido entre a União dos Democratas Cristãos (CDU) [partido conservador da premiê Angela Merkel] – com tendências cada vez mais esquerdistas, já que assumiu algumas posições dos social-democratas – e A Esquerda [do dissidente e ex-presidente do SPD, Oskar Lafontaine] – que defende as antigas posições da esquerda social-democrata. Atualmente, tem dificuldade de se garantir no "sanduíche" e, ao mesmo tempo, manter a ofensiva.

 

Em que medida A Esquerda é responsável pela crise do SPD?

 

Em parte, A Esquerda é uma expressão da crise. É uma parcela de membros esquerdistas do SPD, eles não puderam ser integrados pela política e sua mediação pelo partido. E desde que foi criada [em junho deste ano], A Esquerda é seguramente um fator que alimenta a crise.

 

Lafontaine está tirando eleitores do SPD?

 

Com certeza. Se A Esquerda consegue 10% dos votos, trata-se na maior parte de eleitores desiludidos com o SPD.

 

Atualmente, diz-se que a CDU assumiu as posições neoliberais do SPD; A Esquerda tomou suas posições clássicas; e o Partido Verde tenta ultrapassar os social-democratas pela esquerda, em questões sociais e econômicas. Que valores pertencem apenas ao SPD?

 

Trata-se de um retrato um tanto simplista da situação. A CDU está tentando compartilhar alguns temas social-democratas. Mas faz isso de maneira contraditória, pois mantém os elementos neoliberais na política e no programa dos democratas cristãos. Por sua vez, A Esquerda defende posições da chamada social-democracia de esquerda. Mas são posições antigas, de ontem, de anteontem, que hoje não têm mais potencial política. Imprensado entre os dois, o SPD não consegue mais afirmar as próprias posições de maneira ofensiva. A princípio, no entanto, isto seria possível: o necessário é defender, de um jeito melhor e mais agressivo, as posições social-democratas atualmente realizáveis.

 

Na grande coalizão governamental (SPD/CDU/CSU), às vezes parece que a CDU ultrapassa o SPD "pela esquerda". Os democratas cristãos também podem ser sociais?

 

A CDU sempre foi um partido de contradições entre os valores da corrente social católica e a substância neoliberal dos aspectos econômicos do partido. Dependendo dos resultados das eleições e do clima da opinião pública, é possível mostrar mais uma cara, ou a outra. Agora, após as derrotas das últimas eleições legislativas, o CDU está se esforçando muito para mostrar sua cara social.

 

O SPD ainda tem uma base eleitoral sólida?

 

Sim, mas todos os partidos estão perdendo o eleitorado tradicional. O número de eleitores que trocam de legenda está aumentando, mas isso acontece tanto com o SPD quanto com os outros partidos.

 

Atualmente, jovens e adolescentes – quando têm qualquer interesse político – não se filiam a um partido, preferindo, por exemplo, organizações não-governamentais. As imagens televisivas da cúpula do G8 em Heiligendamm reforçam essa impressão. Porque os partidos políticos não atraem mais a juventude?

 

Muitos jovens preferem engajar-se em organizações menores, já que nestas a influência individual é mais visível. Estas associações também visam atingir um ou dois grandes objetivos. Grandes partidos e organizações são muito anônimos para os jovens, há temas demais e os partidos possuem uma orientação muito voltada para as concessões. A apresentação atual dos partidos realmente pouco interessa aos jovens.

 

No início de setembro, os social-democratas Matthias Platzeck governador do Estado de Brandemburgo), Peer Steinbrück (ministro alemão das Finanças) e Frank-Walter Steinmeier (ministro das Relações Exteriores) apresentaram o livro Sintonia com a atualidade: A social-democracia e o progresso no século 21. A palavra mágica da obra é "Estado de providência social". Que novidades este conceito apresenta?

 

Basicamente, significa uma adoção reforçada de valores específicos do Estado social escandinavo. Significa mais investimentos e igualdade de oportunidades no setor da educação. As estratégias políticas também devem diminuir os riscos sociais, levar segurança às pessoas em situações instáveis. Isto diminui a necessidade de ajuda social do Estado. O princípio faz sentido e não é muita novidade. Em 1989, o programa de do SPD para Berlim continha algumas dessas diretrizes. Mas agora o foco é novo, mais abrangente, e também vai desempenhar um papel de destaque no novo programa partidário do SPD.

 

O que esperar do novo programa partidário, que será votado em outubro?

 

Haverá novos focos. O "Estado-providência" está incluído, com grande importância à ecologia, em especial a política climática. Também vão destacar políticas européias e de globalização. Não será um novo SPD, mas as condições para a democracia social em tempos de globalização certamente serão apresentadas de maneira mais forte e ofensiva.

 

Nas pesquisas de opinião, Kurt Beck, líder do SPD, não está conseguindo muito apoio para as próximas eleições do Bundestag, câmara baixa do parlamento alemão. O SPD precisa de uma estrela como Gerhard Schröder para substituir Angela Merkel (CDU) no governo?

 

É uma questão em aberto. Pessoas como Helmut Kohl, que também não tinham muitos votos, conseguiram ser eleitos devido ao caráter convincente e uma presença política sólida. É possível que Beck passe por algo parecido. As pesquisas não refletem necessariamente as decisões eleitorais. Mas agora ainda não se sabe se Beck vai conseguir mobilizar apoio. Ainda há muito tempo para as eleições.

 

Nas últimas eleições legislativas, Angela Merkel não brilhou pela competência midiática, se comparada à "estrela" Schröder. Mas pesquisas de opinião recentes referentes à predileção pública mostram que a chanceler se sai ainda melhor na mídia do que seu antecessor. Como o senhor vê este fato?

 

Thomas Meyer, cientista político da Universidade de Dortmund e membro do SPDBildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift:  Thomas Meyer, cientista político da Universidade de Dortmund e membro do SPDMerkel desabrochou bastante, consegue se impor na mídia. É fortemente aceita tanto pela imprensa quanto pela população. Naturalmente, isso se deve ao fato de ela tratar principalmente da política externa do país, o que lhe valeu vários pontos. Não cria controvérsias internas e construiu uma boa imagem frente a políticos de todo o mundo. Mas isso também prova que políticos que conquistam uma posição de destaque e têm espaço para exibir este lado conseguem receber um apoio surpreendente.

 

Thomas Meyer é cientista político da Universidade de Dortmund. Ele dirige a Academia Política da Fundação Friedrich Ebert e é vice-presidente da Comissão de Valores Fundamentais do SPD.

 

Fengbo Wang (rk)

 
Share this article

ComentárioEnviar para alguémImprimir

Mais artigos sobre o tema