Cultura | 03.07.2008
Uma nova imagem de Franz Kafka
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Kafka, alemão?
Tcheco, tcheco-judeu ou alemão? Fato é que toda a obra conhecida de Kafka foi escrita no "idioma de Goethe". Em Franz Kafkas Sprachen: "... in einem Stockwerk des innern babylonischen Turms" (As línguas de Franz Kafka: "... num piso da babilônica torre interior..."), o filólogo Marek Nekula aborda a questão da identidade cultural do autor de A colônia penal.
Este nasceu na multinacional monarquia austro-húngara, numa época em que 7% da população de Praga era germanófona (Pragerdeutsch) e vivia num "isolamento insular", nas palavras do próprio Kafka. O Estado da Tchecoslováquia só seria fundado após a Primeira Guerra Mundial.
As influências domésticas foram múltiplas. O pai, Herman Kafka, provavelmente falava iídiche na aldeia natal, na Boêmia, aprendeu alemão na escola primária e adotou o tcheco em Praga, a fim de comunicar-se com os empregados. Embora insistisse em manter o alemão com os familiares imediatos, num censo de 1910 indicou o tcheco como seu idioma quotidiano. Quanto à mãe, Julie Loewy, dominava o alemão coloquial e nunca aprendeu corretamente o tcheco.
Identidade múltipla
Bildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift: A seguradora onde Kafka trabalhava, na Praça Wenzel, em PragaDe uma carta de Franz consta a seguinte definição: "O alemão é minha língua materna, porém o tcheco me fala ao coração". Seu domínio oral do tcheco – tanto coloquial quanto formal – era notável, assim como seus conhecimentos da literatura nacional. Fato que torna ainda mais curiosa a relutância em escrever nesta língua, mesmo sobre assuntos relativos ao trabalho na seguradora.
Os esforços de autoridades tchecoslovacas para, na década de 60, redefinir Kafka como expoente da língua nacional foram, sobretudo, ditados por ilusões patrióticas, não resistindo à evidência lingüística. Por outro lado, Nekula não acredita que a consciênncia que tinhha Kafka da primazia do alemão em sua vida implicasse em qualquer espécie de autoidentificação nacional ("Jamais vivi entre o povo germânico", escreveria).
O filólogo alerta ainda contra a tentação de cobrir as lacunas no perfil lingüístico-cultural com uma pretensa identidade judaica. O próprio Kafka foi sempre modesto no tocante a seus conhecimentos das tradições judaicas ou a seu lugar na comunidade. Apenas em 1911 se interessa pelo iídiche, graças ao contato com uma trupe itinerante de teatro, seis anos mais tarde inicia estudos de hebraico.
Ao final da análise de Marek Nekula paira a imagem de um Kafka plurilíngüe e multicultural. Ou, nas palavras do germanista Peter Demetz, "um dos primeiros cidadãos de nosso mundo multilíngüe, no qual as torres babilônicas [...] crescem como cogumelos após a chuva". E no qual "os chauvinistas ficarão totalmente confusos", como previu Max Brod, amigo de longa data de Kafka.
Fonte de insights
Franz Kafka faleceu em 3 de junho de 1924, de insuficiência cardíaca, após ter a saúde minada durante sete anos por uma dolorosa tuberculose da laringe. Pouco antes pedira a Max Brod para destruir todo o seu legado literário. Porém o fiel amigo recusou este desejo terminal, em benefício da posteridade.
Brod foi o primeiro a se ocupar da fascinante obra kafkiana, a qual continua longe de ser plenamente explorada. E permanece ainda hoje fonte inesgotável de novas descobertas e insights. Como descreve o biógrafo Reiner Stach: "Em sua cabeça corria sem parar um filme. Provavelmente como o que se vivencia sob o efeito de drogas, ou durante a puberdade".
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